Edgar Davids. Foto: GettyImages

Uma vasta cabeleira afro aliada a um óculos original em uniforme alaranjado, alvinegro ou vermelho e branco. Para quem acompanhou o futebol no auge dos anos 1990, e mesmo após esse período, é difícil não reconhecer um jogador com tanta facilidade pelo aspecto físico. Mas tal destaque ia além, porque Edgar Steven Davids foi também um meia notável com a bola nos pés, vestindo especialmente as pesadas camisas de Ajax, Juventus e da Seleção Holandesa.

Não por acaso, suas atuações lhe renderam a alcunha de Pitbull, oferecida pelo compatriota Louis Van Gaal no início da carreira. O destaque surgiu a princípio na base do maior campeão dos Países Baixos. Logo após o nascimento no Suriname, então colônia holandesa, em 1973, Davids mudou-se criança para a capital europeia. E, no Ajax, ascendeu aos profissionais aos 18 anos, sobretudo pelas boas aparições nas categorias menores.

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Na primeira metade da década de 1990, período em que trajou as cores vermelha e branca, Edgar Davids e seu Ajax viveram tempos gloriosos. Antes de tudo pela temporada 91-92, quando o clube venceu sua 1ª e única Europa League, à época Copa da Uefa. Em seguida, sob a batuta do controverso van Gaal e recheado de pratas da casa do calibre de Davids, van der Sar, Seedorf, Kluivert e os irmãos de Boer, o time imortalizou-se em um poderoso esquadrão.

Davids celebra com Edwin van der Saar nos áureos tempos de Ajax. Reprodução: 90s Football

Campeão europeu invicto

Com seu incrível poder de marcação, muita raça e técnica apurada, Davids integrou a volta da soberania nacional da equipe de Amsterdã. Apesar de ainda jovem, ele figurou constantemente entre os 11 iniciais do tricampeonato holandês das temporadas 93-94 a 95-96. Além disso, faturou as Supercopas da Holanda 94 e 95 e a Copa da Holanda 93. Nessa última, aliás, marcou cinco vezes e foi também artilheiro.

A soberania do Joden nos anos 90 atravessaria as fronteiras neerlandesas e culminaria na glória máxima: o título da Liga dos Campeões 1994/95, o quarto e último da equipe até hoje. Detalhe: de forma invicta. O chamado “Futebol Total”, capitaneado pelo ídolo máximo holandês Johan Cruyff nas décadas anteriores, estava de volta.

E lá estava ele, Edgar Davids, ajudando o time a superar Milan, Casino Salzburg e AEK na fase de grupos. Na semifinal, um espetáculo no jogo de volta, em Amsterdã: 5 x 2 contra o não menos poderoso Bayern de Munique. Já na finalíssima, o terceiro triunfo em três duelos na competição contra o então atual campeão Milan.

O gol solitário de Kluivert em Viena recolocaria o Ajax de Davids nas decisões da Supercopa da UEFA e Mundial Interclubes, as quais venceria ambas, contra Zaragoza e Grêmio. Estava consolidada sua supremacia a nível global.

A fera vibra com a conquista da UCL 94/95, diante do Milan. Reprodução: 90s Football

Cão de guarda da Velha Senhora

Por ironia ou não do destino, no último ano com o esquadrão do Ajax (1996), Edgar Davids teve a chance de ser bicampeão europeu justamente contra o clube que viveria seu auge na carreira. Após marcar nas quartas contra o Borussia na Alemanha, ele perderia sua penalidade máxima contra a Juventus na grande final.

Em julho daquele ano, ele sairia sem custos para o Milan. Mas, apenas um ano e meio depois, vestiria as cores alvinegras em uma transação de oito milhões de euros. Na Juve, onde jogou por seis anos, o Pitbull bateu a maioria dos recordes pessoais: atuações (235 contra 182 pelo Ajax), minutos em campo (19.024’), assistências (10) e até cartões amarelos e vermelhos. Somente pelo time de Amsterdã ele marcou mais gols: 34 a 10.

Assim como nos Países Baixos, títulos não faltaram em Turim. De 1998 a 2003, o já consagrado Davids levantou três vezes a taça do Calcio (97/98, 01/02 e 02/03). Além disso, ganhou duas Supercopas da Itália e a Copa Intertoto (99/00). Bateu na trave em mais duas finais de UEFA Champions League, curiosamente nos anos de estreia e despedida. Em janeiro de 2004, o jogador foi repassado por seis meses ao Barcelona.

Davids marcou época na Juve, onde tornou-se ídolo pela raça em campo. Reprodução: Joga de Terno

Das chuteiras às pranchetas

Os melhores dias do Pitbull agora trintão talvez provavelmente ficaram com a Velha Senhora. No Barça do velho conhecido dos tempos de Ajax, Frank Rijkaard, menos fôlego e mais exposição a lesões. Na Espanha, Davids disputou 20 partidas, com um gol e uma assistência. Ao fim do empréstimo, seguiu rumo sem custos para o outro gigante de Milão, dessa vez para defender a camisa nerazzurri.

Em um ano de Inter, o volante adicionou mais um título à extensa galeria de troféus, o da Copa Itália 04/05. Nas temporadas seguintes, defendeu com algum brilho do passado as cores do Tottenham, antes de regressar finalmente às origens. Na velha conhecida Amsterdã, portanto, levantou o último troféu da vitoriosa carreira – a segunda Copa da Holanda com o Joden, em 2006/07.

Antes de encerrá-la em definitivo e convivendo com potenciais lesões, Davids alternou momentos de pausa com o retorno ao futebol da Terra da Rainha. Em 2010, reembarcou em Londres para defender as cores do Crystal Palace. Enfim, pendurou as chuteiras quatro anos depois no Barnet, clube da 5ª divisão inglesa, onde acumulou as funções de jogador e treinador da equipe.

Após um período em 2020 como auxiliar técnico do Telstar, time da 2ª divisão holandesa, o Pitbull foi anunciado como treinador do Olhanense, de Portugal, no último dia 4 de janeiro. Curiosamente, a raça que por vezes passava dos limites acompanhou-o para fora das quatro linhas: foi expulso na estreia como comandante do clube português.

Como jogador, Edgar Davids disputou 580 partidas oficiais pelos clubes que defendeu e marcou 48 gols. Já como o lendário camiseta 16 e 8 (com e sem Bergkamp) da Laranja Mecânica, somou 74 aparições com seis bolas na rede, entre 1994 e 2005.

Davids é o atual treinador do clube português S.C Olhanense. Reprodução: Olhanense

Sonho da Copa realizado e seleção da Eurocopa

Sim, o Pitbull holandês também realizou o sonho de disputar uma Copa do Mundo pela seleção do seu país. E com propriedade. Em 1998, logo após perder a final da Champions com sua Juve frente ao Real Madrid, Davids assumiu o papel de referência de uma das maiores seleções holandesas da história.

De van der Sar a Bergkamp e Kluivert, passando pelos irmãos de Boer, Seedorf e o próprio Davids, o sonho maior ainda do triunfo somente seria interrompido na semifinal e nas penalidades máximas. Do outro lado, a camisa mais pesada do futebol e o então melhor do mundo, Ronaldo.

Nas oitavas de final, em um duro duelo contra a Iugoslávia de Mijatović e cia, o meia viveu um momento mágico: coroou sua grande competição e marcou o tento do 2 x 1 aos 47’ do segundo tempo. Além disso, Davids representou a Holanda em três edições seguidas da Eurocopa, entre 1996 e 2004, parando também nas semis das duas últimas. Na de 2000, foi ainda eleito para a seleção ideal do torneio.

Óculos: questão de estilo ou necessidade

Para além do excepcional jogador que foi, Davids tornou-se praticamente um ícone fashion com seus óculos adaptados para o ofício, sem contar o estilo único da cabeleira e as roupas vistosas fora de campo. Os primeiros fãs de Winning Eleven tinham o meia como uma de suas escolhas preferidas, claro, também por sua força, velocidade e bom chute. Mas, afinal, por que óculos tão estilosos? Para ver melhor os adversários?

Enquanto estava em atividade, o Pitbull holandês foi diagnosticado com glaucoma, problema ocular que pode causar até cegueira. Com o devido tratamento à época e uma permissão especial da FIFA, uma vez que os atletas em princípio não poderiam usar esse tipo de acessório, ele seguiu atuando. Em resumo, caso não tivesse a “proteção”, provavelmente não jogaria futebol sem o agravamento do quadro.

Um volante canhoto de contenção, técnico mas agressivo; ou, porque não, um meia central e cerebral. Agora, na beirada da cancha, as pranchetas substituem velhas chuteiras. Na história do futebol, seja em trajes alvinegros, vermelhos ou laranjas, seja de roupa estilosa ou terno e gravata; com ou sem os eternos óculos especiais e as longas madeixas afro, você sempre saberá quem foi, Edgar Steven Davids.

Foto Destaque: Gabriel Bouys / Equipa

Lucas Rodrigues
Jornalista de Belo Horizonte-MG, com quase dez anos de trabalhos em mídia online, rádio e jornalismo multimídia. Experiência na produção e edição de conteúdo sobre esportes, saúde e meio ambiente. Atualmente, é gerente de comunicação da Clínica Radiológica Odonto Facial. Entre 2012 e 2019, foi colaborador do Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e da Gerência de Comunicação Corporativa da Unimed-BH. Concluiu cursos complementares de jornalismo esportivo, locução, programação de áudio, retórica literária e roteiro de cinema.

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